A agricultura biológica está na ordem do dia, mas do que é que se trata e qual a sua relação com a sustentabilidade? Valerá a pena apostar nesta área em Portugal?

A premissa é simples: preservar as gerações presentes e futuras. No entanto, as premissas simples nem sempre são fáceis de alcançar. Preservar a humanidade é muito mais complexo do que, à partida, se possa pensar: exige a compreensão e aceitação de que dependemos do meio ambiente à nossa volta. Exige, sobretudo, a compreensão da vida como um todo, desde a inter-relação entre os ecossistemas à naturalidades dos ciclos da natureza.

O que é uma dieta sustentável?

Se somos o que comemos, não será difícil compreender que qualquer alimento que ingerimos deve ser o mais natural possível, seja ele de origem animal ou vegetal.
Estudos comprovam, aliás, que a relação entre o que comemos e doenças como o cancro, por exemplo, é muito estreita. Esta é, portanto, a base para o início da nossa exposição. Produzido com recurso a métodos de produção que respeitam o ambiente e os animais, um alimento sustentável deve ser local e sazonal (adquirido diretamente aos produtores) e não processado (de modo a minimizar a quantidade de recursos utilizados, como a água ou os combustíveis).
Desta forma, ao adquirirmos um alimento sustentável, estaremos, segundo a definição da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), a contribuir para uma dieta sustentável, que num conceito mais lato, responde à premissa inicial: baixo impacto ambiental e segurança nutricional da população, assim como o seu estado de saúde, tanto no presente como no futuro.

Portanto, uma dieta sustentável é essencial à humanidade porque protege e respeita a biodiversidade e o ecossistema (respeitando o ciclo das culturas e a não utilização de químicos e pesticidas), mas também porque deve ser nutricionalmente adequada, acessível pela população e economicamente justa para os produtores.

Porquê a Agricultura Biológica?

Mas porquê evitar a utilização de produtos nocivos para o meio ambiente, como os químicos de síntese e adubos facilmente solúveis? A lógica é simples: animais saudáveis dependem de plantas saudáveis; plantas saudáveis dependem do solo saudável; e solos saudáveis dependem de decompositores saudáveis. Assim, na exploração biológica, o equilíbrio ecológico é feito através da reciclagem de nutrientes, exclusão de organismos geneticamente modificados, práticas de cultivo adequadas ao solo existente e métodos de produção com recurso a substâncias e processos naturais. Para além disso, a agricultura biológica promove a sanidade animal, por forma a evitar a dor nos animais e, consequentemente, na nossa saúde.

Portugal acompanha a tendência?

Embora tenha muito caminho para trilhar no que diz respeito à agricultura biológica –Portugal apresenta um peso acima dos 5%, porém, abaixo da média da União Europeia –, o país está a trabalhar nesse sentido. Em 2022 foi definido um plano de ação para o período de 2022-2027, coincidente com a vigência no novo programa de desenvolvimento rural. A estratégia integra, assim, os princípios e orientações que deverão servir de base à definição do próximo Programa de Desenvolvimento Rural. Foram definidas 10 metas:

  • Duplicar a área de agricultura biológica, para cerca de 12% da superfície agrícola nacional utilizada;
  • Triplicar as áreas de hortofrutícolas, leguminosas, frutos secos, cereais e outras culturas vegetais destinadas a consumo direto ou transformação;
  • Duplicar a produção pecuária e aquícola, com particular incidência na produção de suínos, aves de capoeira, coelhos e apícola;
  • Duplicar a capacidade interna de transformação de produtos biológicos;
  • Incrementar em 50% o consumo de produtos biológicos;
  • Triplicar a disponibilidade de produtos biológicos nacionais no mercado;
  • Reforçar a capacidade técnica, com duplicação de técnicos credenciados e o reforço da capacidade técnica específica do Estado;
  • Aumento em, pelo menos, de 20% da capacidade de oferta formativa;
  • Criação de um Portal “BIO” de divulgação, promoção de inovação e difusão de informação técnico-científica específica.

Desta forma, espera-se que Portugal consiga, em 2027, aproximar-se da média da União Europeia, no que diz respeito à produção, distribuição e comercialização de produtos biológicos.

Fonte: observador.pt