Mais de 20 oradores internacionais estiveram em Lisboa para debaterem o futuro do sector agroalimentar. Apresentaram estratégias para uma agricultura mais sustentável, focada no consumidor e na redução do desperdício.

Os solos “estão empobrecidos”, temos a mesma área de terra para cultivar, mas precisamos produzir três vezes mais para alimentar uma população crescente de quase dez mil miliões de pessoas. O alerta foi dado por Peter Brabeck-Letmathe, presidente do conselho consultivo internacional na San Telmo Business School (Suíça), durante as Lisbon Agri Conferences, iniciativa que trouxe ao Centro de Congressos da capital mais de 20 oradores internacionais que, durante dois dias, refletiram sobre o futuro do sector agroalimentar.

O também vice-presidente do Fórum Económico Mundial afirma que o uso de ingredientes de pouca qualidade nutricional, o investimento na fertilização industrial e uma agricultura intensiva, altamente produtiva, mataram a biodiversidade e que agora já não é suficiente fazer uma agricultura sustentável, é preciso também regenerar os campos. “Temos de lhes dar nova vida e cuidar da saúde do nosso solo, (…) adotar formas não intensivas de agricultura, desenvolver mais os fertilizantes biológicos e compreender melhor a complexa interação entre solo, plantas, animais e ambiente. Se voltamos para o sistema antigo, podemos ter quatro vezes mais emissões de CO2 para o ar do que antes”, avisa Peter Brabeck-Letmathe.

A adoção de uma agricultura regenerativa e de precisão são outras duas fortes recomendações feitas por todos os intervenientes, que esperam resultados positivos dos €2,5 mil milhões da União Europeia para apoiar as estruturas de banda larga de toda a Europa. “Isto vai permitir mais conectividade, fundamental para desenvolvimento de agricultura de precisão e fixação das empresas”, diz Elisa Ferreira, comissária europeia para a Coesão e Reformas. Esta revolução não pode, porém, ser só feita nos campos. O comportamento do consumidor é um fator determinante no avanço científico e tecnológico da agricultura, mas este caminho tropeça na dependência dos preços, que se acentuou com o aumento da inflação nos últimos três anos, e afetou a sua capacidade de decisão.

Uma das estratégias para influenciar estas escolhas é a personalização da promoção. “É preciso reinventar estratégias e levar o foco mais para o valor do produto e menos para o preço. O consumidor valoriza e está disposto a pagar mais por produtos com mais qualidade”, afirma Ana Paula Barbosa, diretora de serviços de retalho na NielsenIQ (Portugal), reconhecendo que, embora este comportamento seja variável e não estejamos no melhor contexto, tem de haver uma comunicação eficiente sobre o benefício “para que passe a ser um tema para o consumidor”. Louisa Hooper, diretora de sustentabilidade na Fundação Calouste Gulbenkian (Inglaterra), concorda que são as pessoas que têm de estar no centro das mudanças positivas, mas que é preciso encontrar soluções com base na ciência. “Trabalhar com aqueles que ainda não estão convencidos com a sustentabilidade. Comunicar e colaborar com organizações para mudar as histórias que se contam sobre o clima, tendo por base a evidência.”

É neste campo da comunicação que António Corrêa Nunes, organizador das Lisbon Agri Conferences, acredita que também este evento pode fazer a diferença. “Tivemos mais de 700 pessoas no Centro de Congressos de Lisboa e agradecemos ao Expresso a oportunidade de associar-se novamente como media partner, o que permitiu chegar a milhares de pessoas via streaming. Tudo isto é um ótimo reflexo do interesse e oportunidade da Lisbon Agri Conferences e da sua missão de desenvolver o conhecimento de uma forma independente, aglutinadora, transversal e enriquecedora”, diz.

Também na área de combate ao desperdício de recursos, a comunicação e partilha de conhecimento têm um papel fundamental na mudança de hábitos e mentalidades. O estudo “O Uso da Água em Portugal”, desenvolvido entre 2019 e 2020, encomendado pela Gulbenkian, revelou que a maioria dos agricultores não mede a água que gasta (71% não tem contador de água), mas que 81 por cento dos que adotaram novas tecnologias não têm dúvidas de que poupam água e que esta poupança abrange também a energia ou os fertilizantes.

A transição para uma agricultura mais sustentável do ponto de vista hídrico exige a adoção de tecnologias inovadoras de rega e gestão de água. A aposta na inovação, aliada ao investimento e a uma colaboração estreita entre empresas e Estado, foi a estratégia que permitiu que Israel se tornasse, hoje em dia, um case study sobre como um país “à beira do deserto” e com um clima desafiante, se tornou independente em termos hídricos. “Temos excedente de água”, conta David Balsar, diretor-geral de Inovação e Empreendimentos na Mekorot (Israel), acrescentando que os campos no deserto de Israel produzem e exportam frutas e vegetais todos os anos.

Há quatro pilares fundamentais onde assenta o sistema de água em Israel: a dessalinização, onde foram pioneiros no sul do país nos anos 60, e em larga escala desde 2004; o sistema de rega gota a gota, que evita o desperdício de água; o tratamento de esgotos em que 90 por cento da água é tratada e depois usada para irrigação; boas infraestruturas e canalização. “Conseguimos reduzir as nossas fugas de água em menos de três por cento, enquanto no resto do mundo as perdas são mais de 30 por cento”, diz. Em Israel toda a água é pública, não há fontes de água privada, o que permite gerir o sistema de forma central e medir toda a água que é consumida.

David Balsar chama ainda a atenção para o facto de a complexidade do sistema não estar só na engenharia mas também na política pública. “Se querem embarcar numa jornada em que vão investir em infraestruturas e na dessalinização precisam de políticas para isso”, aconselha o especialista, que lança o desafio à Península Ibérica. “[Em Israel] Estamos a produzir muita água artificialmente. Portugal e Espanha têm acesso ao mar. Esta é uma solução viável e boa para ser usada.”

ESTRATÉGIAS PARA AUMENTAR A PRODUÇÃO AGRÍCOLA

  • Apostar na agricultura de precisão, adotando melhores ferramentas que permitam saber em direto o que se passa nos campos e onde é preciso intervir de forma seletiva.
  • Investir numa maior automatização e no recurso à robótica, por questões de eficiência mas também para atrair talento, melhorando as condições de trabalho.
  • Informar e influenciar o consumidor para o tornar um ativista pela escolha de alimentos nutritivos, produzidos de forma sustentável.
  • Dar uma nova vida aos campos através da agricultura regenerativa, protegendo os solos e aumentando a biodiversidade.
  • Criar um sistema eficiente de gestão da água, minimizando o desperdício e recorrendo a tecnologias que permitam medir todos os gastos.
  • Reduzir o uso de pesticidas químicos, substituindo-os gradualmente por soluções biológicas igualmente eficazes, e que melhorem a qualidade da produção.

Fonte: Expresso